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João Teotónio Pereira

No dia 16 de Fevereiro de 2004 assumi as funções de Cônsul-Geral de Portugal em Paris. Dias depois, tive a feliz oportunidade de assistir ao II Encontro dos Portugueses e Luso-descendentes eleitos nas Autarquias Francesas. Só o título impressionou-me. São mais de 200 os portugueses e luso-descendentes que têm uma palavra a dizer na administração da vida política local deste país. Não pude deixar de sentir um enorme orgulho pelo caminho percorrido pela comunidade portuguesa desde meados dos anos 60. Como disse, naquele Encontro, o Professor Eduardo Lourenço: “se a emigração não é uma epopeia, não sei o que é uma epopeia”. E, com efeito, apesar das grandes dificuldades iniciais, a comunidade portuguesa soube integrar-se exemplarmente na sociedade francesa, sem perder a sua identidade e as suas raízes. É uma comunidade organizada, eficiente e dinâmica, que participa na vida colectiva e dá um importante contributo para a construção económica e social de França. Os autarcas reflectem bem o grau de integração alcançado. Eles constituem uma importante mais-valia para o conjunto da comunidade e contribuem para o reforço qualitativo das relações luso-francesas. Contudo, a participação cívica e política dos portugueses está ainda longe de corresponder ao valor real da comunidade. Quanto maior for o seu peso político mais fácil será a resolução dos diversos problemas que afectam as suas diferentes gerações. É igualmente imperioso que os portugueses que aqui residem participem na vida política portuguesa e europeia. Dos muitos milhares de inscritos no Consulado-Geral em Paris, cerca de 13 mil estão recenseados e destes, pouco mais de mil exercem o direito de voto. Uma situação que urge melhorar.

A língua e a cultura portuguesa são também áreas fundamentais da nossa afirmação estratégica. Portugal tem uma velhíssima História, uma riquíssima Cultura e uma das línguas mais faladas no Mundo. Vale a pena ensiná-la e cultivá-la. Devemos continuar a procurar despertar e manter o interesse dos mais novos pelo estudo da língua e da cultura, privilegiando a qualidade e o aproveitamento. Para que isso suceda, é necessário uma comunidade com iniciativa própria, forte e mobilizadora que partilhe com o Estado a responsabilidade que lhe cabe na promoção da língua de Camões. A cultura portuguesa tem uma expressão muito significativa na sociedade francesa. A poesia, o ensaio, a ficção, a moda, a arquitectura, o cinema, a pintura, a música e o fado estão muito presentes na vida quotidiana parisiense e têm contribuído para prestigiar a imagem de Portugal neste país.

As associações desempenham um papel fundamental na manutenção e promoção da cultura e dos costumes portugueses, na ligação permanente daqueles que aqui vivem com a sua terra, ajudando, assim, à coesão económica e social da comunidade portuguesa. Elas podem também contribuir, de uma forma mais incisiva, para fomentar as potencialidades e o dinamismo dos sectores económico, empresarial, da comunicação social ou da juventude, proporcionando-lhes um espaço mais alargado de afirmação e de influência.

O número crescente de profissionais liberais e de pequenos, médios e grandes empresários portugueses exprime bem a capacidade latente daqueles sectores e reflecte-se no reforço das relações económicas entre Portugal e a França, o nosso terceiro cliente e fornecedor. Os dois países estão integrados no mesmo espaço social, político e económico europeu. Defendem a construção de uma Europa que se pretende pacífica e próspera, mas também coesa e solidária. Uma Europa em que os seus Estados-membros e os seus cidadãos sejam tratados com igual dignidade. A cidadania europeia, tal como a moeda única, é uma realidade na vida política e social da Europa. Isto confere responsabilidades acrescidas aos Estados de acolhimento, nomeadamente, no que diz respeito à aplicação e cumprimento dos regulamentos e directivas comunitárias.

Graças, em parte, à União Europeia e ao importante contributo de todos os portugueses espalhados pelo Mundo, Portugal é hoje um País muito diferente. Quando se olha para trás e se verifica o enorme progresso do País nos últimos vinte anos, não se pode deixar de considerar surpreendentes os resultados alcançados. As infra-estruturas, a economia, o desenvolvimento das cidades, os grandes projectos, como a Expo 98 ou o Euro 2004, são exemplos da mudança qualitativa que marcou as últimas décadas.

O Consulado-Geral de Portugal em Paris espelha bem essa mudança qualitativa. Em virtude dos grandes investimentos que, nos últimos anos, se fizeram em instalações, na formação dos funcionários, no equipamento e na informatização, a comunidade portuguesa e todos aqueles que aqui se dirigem têm ao seu dispor um edifício que dignifica a imagem do País e funcionários e serviços preparados e empenhados em servir cada vez melhor. Desde Dezembro passado, começou-se a emitir localmente bilhetes de identidade, uma aspiração antiga da comunidade portuguesa com evidentes benefícios na vida dos cidadãos e nas suas relações com o Estado. Em Janeiro, inaugurou-se uma página na “Internet”. Um “site” que se encontra ainda numa fase inicial, mas que se pretende melhorar constantemente em termos de qualidade, ligações e informação disponível. Entretanto, novos desafios se colocam. Com a passagem do Consulado de Portugal em Rouen a Consulado Honorário, o Consulado-Geral em Paris viu substancialmente aumentada a sua área de jurisdição. Procurar-se-á adaptar os serviços às novas necessidades, de forma a contornar as naturais dificuldades que todas as alterações implicam. 

Pela minha parte, procurarei estar sempre à altura das responsabilidades e das tarefas que me são confiadas, prosseguindo com energia o excelente trabalho dos meus antecessores e tendo presente que a conjugação de forças com a comunidade portuguesa e os seus descendentes é a chave da afirmação dos valores que nos unem.

João Teotónio Pereira

Consulado-Geral de Portugal em Paris | mail@paris.dgaccp.pt